Atual

O poeta hoje anda com pouco dinheiro
Não paga nada a prazo
tudo à vista
em vista de...
Seu “RG” está aberto, sem validade.
Anda com cara de pedinte mas não pede nada...
Tem pouco dinheiro senão nada.

O poeta hoje não bebe tanta cerveja mais, mas se lhe oferecem não nega, rega-se.

O poeta hoje quer ir pra mata, ficar com passarinhos e lagos, quer escutar; mais do que escrever quer ouvir.
Hoje o poeta trabalha no banco, no banco da praça, numa vereda em que a árvore o cubra contra tudo.
O poeta hoje é uma árvore, coberto por galhos inconscientes que na sua totalidade são a harmonia, são uma simetria irregular.

O poeta não tem mais pseudônimo e seu nome são seus nomes.
Não vende mais verso, inverso do mercado compra de si mesmo, e não paga.
Seu lucro é seu prejuízo.


Hoje o poeta gosta de sol, de água. E a pele? A pele é fina.

O poeta come pouca carne para não pesar no bolso do estômago, que lhe é fraco, raro.
Em meio a tornados que por ele passam, não dá força; assobia, abraça todos com rosto claro.

O poeta hoje lava as mãos três vezes ao dia, e a catinga do dia escorre pela estrofe-torneira pela água-lirismo.
Ensaboar-se para o poeta, hoje, é estar em pé e querer todas as mulheres.

A mulher bonita quer o poeta, mas o não encontra.
Ele vive só e o que quer é a sobra do que todos procuram, e ninguém planta.
O poeta hoje segue rígida jornada de não se ir embora à toa.


...


Num toco de madeira, estava escrito: ”poeta bom é poeta morto”.

Ele olhou os pombos voarem sobre a resta comida do chão
riu, jogando o pau fora
andou mais um pouco
e riu de novo.

...


Isso foi hoje, não amanhã.

Hoje
um poeta passou por mim de cara limpa e ria
ria de um pedaço de madeira que lia

Sabe se lá que poema ele fez sobre este dia

O toco de madeira estava seco
e ao cair se estilhaçou em infinitas lascas
mas o poeta não viu
porque só, ria...



tato